
Que tal começarmos a exercer o direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
No próximo milênio, o ar estará limpo de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.
Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.
A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um
negócio, porque comida e comunicação
são direitos humanos.
A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs
siamesas condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.
E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.
EDUARDO GALEANO (tradução livre de Rodrigo Espinosa Cabral)
segunda-feira, 28 de julho de 2008
O Direito ao Delírio
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Onde?
e a distância
onde me ocultar?
Entre o medo
e o multiapego
onde me atirar?
Entre a querência
e a clarausência
onde me morrer?
Entre a razão
e tal paixão
onde me cumprir?
Zila Mamede in Corpo a Corpo
domingo, 29 de junho de 2008
Eu escrevo porque...
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
Texto extraído do programa "ÍNDICE CULTURA - Editoria Especial"
Produzido pela CULTURA FM
segunda-feira, 23 de junho de 2008
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Palavras cruéis?
Autoria atribuída a Winston Churchill
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Um cisco e uma tábua de madeira
Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão: "Me deixe tirar esse cisco do seu olho", quando você está com uma trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão.Jesus Cristo, citado por Mateus, em seu livro. Capítulo 7, versos 3-5
domingo, 1 de junho de 2008
O expressível e o indizível
Eu já escrevi tudo o que sabia e tudo o que não sei. E se o leitor não entender, infelizmente não posso fazer nada, pois só sei escrever assim. Eu só expressei o "expressível". Mas o indizível também é um estado da alma.Hilda Hilst - citada in Literatura - A invenção do amor - "revista e" n. 45 - Portal SESCSP
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Desaparecimentos e Aparições
Há pessoas com quem te habituaste a falar na rua e que desaparecem de súbito como esses reflexos ocasionais do tráfego.Queres uma letra para o teu suspiro?
Aqui vai:
A morte é a única coisa incerta que existe.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Perversidade
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Fatalidade
Em todos os velórios há sempre uma senhora gorda que, em determinado momento, suspira e diz:
- Coitado! Descansou...
Mario Quintana in Sapato Florido
sábado, 24 de maio de 2008
A invenção de um modo
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São Paulo"
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.

Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Hilda Hilst

coisa que não existe mas é crua, é viva, o Tempo
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Psicografia
No começo, as pessoas não acreditavam que era eu quem escrevia, por ser muito jovem e bonita. Diziam que não era possível essa mesma mulher escrever o que eu escrevia, achavam que era tudo psicografado.
Literatura - A invenção do amor - "revista e" n. 45 - Portal SESCSP
quinta-feira, 15 de maio de 2008
A sagrada face
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e como minha mãe diziam:
“um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Adélia Prado in Poesia reunida, p. 341
terça-feira, 13 de maio de 2008
Venho de Tempos Antigos
Deus pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante sorvete de cereja.
Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos.
Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst... eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
Hilda Hilst in Cadernos de Literatura Brasileira, Instituto Moreira Salles, 1999
sábado, 10 de maio de 2008
Onde?
e a distância
onde me ocultar?
Entre o medo
e o multiapego
onde me atirar?
Entre a querênciae a clarausência
onde me morrer?
Entre a razão
e tal paixão
onde me cumprir?
Zila Mamede in Corpo a Corpo
sexta-feira, 9 de maio de 2008
O mistério do perfume
Não aplique perfume na roupa. Você estragará ambos.
A roupa pode manchar. E o perfume termina por ficar muito cru e sem mistério.
O mais recomendado é passar o perfume na pele. Esta absorve-o, e o resultado é mais pessoal. Você ganhará um perfume que ninguém tem totalmente igual, pois nem todas têm sua pele, com seu odor próprio e com o seu grau de calor. Sua pele absorve o perfume e devolve-o com o acréscimo de você mesma. Daí em diante, o perfume não se chamará mais, digamos, "Me adorem por favor", mas passará a se chamar "O me adorem, por favor, da Maria" - isto na suposição de que uma de vocês se chame Maria.Entre passar perfume na roupa e na pele, há uma diferença mais ou menos comparável àquela que existe entre um vestido pendurado no cabide e usado no corpo.
Clarice Lispector in Correio Feminino
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Vivendo, Amando e Aprendendo
Há pouco tempo tivemos um terremoto grave em Los Angeles, que afetou muito a minha casa. O teto da sala desabou e a lareira desmoronou. Ficamos sem água. De repente, aquilo nos ensinou o valor das coisas; mostrou-nos de novo que os objetos são tolos, e que só tínhamos a nós mesmos. Saí da casa quando tudo estava caindo em volta de mim. Amanhecia e havia um raio de luz aparecendo no céu. Tenho um grande pessegueiro no quintal dos fundos. Lá estava ele, todo em flor. E, de repente, numa fração de segundo, me ocorreu: Sabe, o mundo lindo vai continuar, com ou sem você, homem. E, quanto a mim, valeu o preço do terremoto, para que eu me lembrasse disso de novo.segunda-feira, 5 de maio de 2008
Igual-desigual
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol
são iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.
Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou
coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.
domingo, 4 de maio de 2008
A bela adormecida
Estou alegre e o motivo
Beira secretamente a humilhação
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve
[...]
Eu fico tão atenta que adormeço,
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.






















